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BOLETIM SEMANAL Nº 89 - BRASÍLIA-DF,
23 DE SETEMBRO DE 2007
PASTORAL
MILHO DE PIPOCA
A transformação do milho
duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação
por que devem passar os homens para que eles venham a
ser o que devem ser. O milho de pipoca não é o que deve
ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro.
O milho de pipoca somos nós: duros, quebra-dentes,
impróprios para comer.
O milho de pipoca são os seres humanos a
que costumamos nos referir como “adormecidos”, duros,
impróprios para servir de alimento, incapazes de saciar
a fome de justiça, amor, compreensão e verdade desta
sofrida humanidade.
Mas a transformação só
acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que não
passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para
sempre.
Assim acontece com a
gente. As grandes transformações acontecem quando
passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do
mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice
e uma dureza assombrosas. Só elas não percebem. Acham
que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de
repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança
numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser o fogo
de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente,
perder o emprego, ficar pobre. Pode ser o fogo de
dentro: pânico, medo, ansiedade, depressão, sofrimentos
cujas causas ignoramos.
Há sempre o recurso do
remédio. Apagar o fogo. Sem fogo, o sofrimento diminui.
E com isso a possibilidade da grande transformação.
Imagino que a pobre
pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada
vez mais quente, pensa que a sua hora chegou: vai
morrer. Dentro de sua casca dura, fechada em si mesma,
ela não pode imaginar destino diferente. Não pode
imaginar a transformação que está sendo preparada. A
pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem
aviso prévio, pelo poder do fogo a grande transformação
acontece: BUM! E ela aparece como uma outra coisa
completamente diferente que ela mesma nunca havia
sonhado.
Torna-se em algo que, em essência, é o
que de mais puro, belo e verdadeiro existe em seu âmago.
Piruá é o milho de pipoca
que se recusa a estourar. São aquelas pessoas que, por
mais que o fogo esquente se recusam a mudar. Elas acham
que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o
jeito delas serem. A sua presunção e o medo são a dura
casca que não estoura. O destino delas é triste. Ficarão
duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor
branca e macia. Não vão dar alegria para ninguém.
Terminado o estouro
alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que
não servem para nada. Seu destino é o lixo.
E você, o que é? Uma
pipoca estourada ou um piruá?
Rubem Alves.
(Rev. Luciano Roberto) |